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O calvário de uma executiva até chegar
ao céu corporativo
O empregado tradicional está morto! -- disse o mestre. E a Márcia Maria,
do meu lado, suspirou:
-- Ah, não! Morri de novo...
Era o quinto falecimento da Márcia em oito anos, mas ela
até que tinha sobrevivido bem aos quatro anteriores.
O primeiro deles foi
quando acabou o namoro dela com o Vantuil, e este não se conformou:
-- Pra mim você morreu, Márcia.
O Vantuil, apesar do nome, era boa-praça. Mas a Márcia, aos 19 anos, não
estava a fim de se amarrar. Queria investir numa carreira de sucesso,por
isso chutou oVantuil, que era meio paradão, zen demais para o gosto dela.
Mas a decisão foi difícil e por isso a Márcia tomou uma medida drástica:
trancou-se em seu quarto e chorou a noite inteira. E sua mãe, dona
Diamantina, ali, tentando ajudar:
-- Olhe a coisa pelo lado bom, minha filha.
-- Que lado bom, mãe? O Vantuil disse que eu morri!
-- Então. Só quem morre vê o céu por dentro.
A Márcia internalizou a desdita, crente de que ver o céu corporativo por
dentro valia qualquer sacrifício. Matou a pau na faculdade, conseguiu e
encaixar numa empresa de exportação e com o tempo foi se tornando
indispensável, porque era a única que sabia tudo sobre guias, formulários,
decretos e trâmites burocráticos. Tanto que, como reconhecimento, a
empresa a enviou ao seminário "Perspectivas
da Exportação para o Terceiro Milênio".
A Márcia nem tinha se
ajeitado direito na cadeira e, lá do púlpito, o apresentador fulminou:
-- Na empresa moderna, o especialista está morto!
Hããã? A Márcia pensou que não tinha ouvido direito, mas tinha. O
terceiro milênio pertenceria aos generalistas,e ela era uma especialista.
Gente como ela, o apresentador decretou, se tornaria um fardo para as
empresas porque era preciso multiculturalidade, multipluralidade e mais
meia dúzia de coisas começadas com "multi", que os
especialistas não tinham. O céu ficou um pouco mais distante, só que a
Márcia não era de desistir
assim tão fácil. Ninguém na empresa entendeu bem por quê, mas ela
tanto implorou que conseguiu uma transferência para a área comercial.
Iria aprender tudo o que pudesse e depois pediria para fazer um estágio na
área jurídica. Ou na de compras. Ou na oficina mecânica.
O importante era
generalizar.
Num desses corrupios, a empresa botou a Márcia para tomar conta de uma
pequena equipe de almoxarifado e descobriu que ela tinha um insuspeitado
espírito de liderança.
O estilo gerencial da
Márcia era o que ela chamava "gestão
por TPM". Ou seja, era como se todo dia fosse opior dia do mês. E
tome pressão! Os resultados eram ótimos, mas todo mundo ali vivia
estressado. Um dia, um funcionário da Márcia, o Nestor, reclamou que
numa reunião ela havia dito
que todo mundo ali no almoxarifado era incompetente:
-- Desculpe, Márcia, mas você está generalizando.
-- Só estou, Nestor! Mais generalizada do que eu, impossível.
Daí a dois anos a Márcia finalmente lembrou que nunca na vida havia
tirado férias. E já estava juntando uns pingados para curtir um par de
dias na praia quando veio a notícia: a empresa tinha sido vendida para
uma multinacional. E, claro, o VP de human resources da múlti alertou Márcia
de que, dali em diante, quem não soubesse falar inglês "staria"...
-- Nem precisa me dizer! Já estou saindo da cova para fazer um curso!
Por via das dúvidas, além do inglês, a Márcia aprendeu também
um pouco de espanhol. Sabe-se lá o dia de tomorrow, ou mañana, ou
qualquer outro amanhã que viesse pela frente. Mas valeu a pena, porque
ela escapou da sinergização que estraçalhou o organograma de sua antiga
empresa.
Dona Diamantina andava preocupada porque a filha já não comia direito, não
dormia direito, não tinha namorado e mais uma lista de deficiências que
só mãe enxerga. A Márcia prometeu que dali em diante tudo iria mudar
porque, afinal de contas, ela era uma ex-especialista-generalista-líder-poliglota
e estava na hora de finalmente sair de férias. Foi quando Dona
Diamantina ligou a TV para saborear sua novelinha e apareceu um sujeito
num desses canais com muita conversa e pouca ação:
-- No mercado de trabalho, hoje, quem não tem MBA está morto
e ainda não percebeu.
A Márcia rolou no chão num espasmo post mortem. Cancelou de novo as férias
e saiu naquela mesma noite procurando um MBA para poder ressuscitar antes
que a empresa percebesse que ela
era uma alma penada.
Perdeu meio quilo por mês nos longos meses seguintes, até pesar --
segundo Dona Diamantina -- menos que as penas do travesseiro. E foi só aí,
quando se certificou de que nada mais lhe faltava, que a Márcia ensaiou
aquela ida à praia. Mas antes aproveitou para assistir a uma palestra
sobre competitividade no mercado de trabalho, só para não perder o hábito.
E foi lá que morreu pela quinta vez:
-- O empregado tradicional está morto! -- disse o mestre.
A moda agora era o empreendedorismo. A Márcia nem quis saber direito o
que era aquilo, só onde assinava para se atricular. O mestre esclareceu
que empreendedorismo não era uma técnica, mas um estado de espírito.
Era o funcionário decidindo como se fosse o dono. Para os não
empreendedores, só restava a sepultura profissional. Só que a Márcia
nem ouviu, porque havia saído em disparada pelo corredor. E já ia
rasgando passagem para a praia quando percebeu, sentado lá na décima
fila, ninguém menos que o Vantuil. Mais gordo, sem o bigode, mas era ele
mesmo.
Conversa vai e volta, a Márcia ficou sabendo que o Vantuil não era nem
especialista, nem generalista, nem poliglota, nem tinha MBA e não
aparentava nenhuma propensão para empreendedor. Mas, incrivelmente, dava
a impressão de ainda estar vivo.
-- Vantu, me conte, como você conseguiu sobreviver esses anos todos?
-- Ah, numa boa. Tranqüilo. Ganhando uma nota preta. Dou consultoria,
sabe?
-- Em quê??
-- Qualidade de vida. Conselhos sobre relaxamento mental. Coisa filosófica,
assim bem zen. Você sabe, o mercado está infestado de profissionais que
nem sabem mais o que é viver
porque estão morrendo de tanto trabalhar. Mas e você,
Marcinha?
-- Ah, eu estou aí, na fila para ver o céu por dentro. Por
enquanto tenho morrido bem, obrigada!
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