Pontos e Vírgulas ................................. 2002

 

                                      Ajoelhou tem que rezar!

 
 O calvário de uma executiva até chegar ao céu corporativo

O empregado tradicional está morto! -- disse o mestre. E a Márcia Maria, do meu lado, suspirou:
-- Ah, não! Morri de novo...
Era o quinto falecimento da Márcia em oito anos, mas
ela até que tinha sobrevivido bem aos quatro anteriores.

O primeiro deles foi quando acabou o namoro dela com o Vantuil, e este não se conformou:

-- Pra mim você morreu, Márcia.
O Vantuil, apesar do nome, era boa-praça. Mas a Márcia, aos 19 anos, não estava a fim de se amarrar. Queria investir numa carreira de sucesso,por isso chutou oVantuil, que era meio paradão, zen demais para o gosto dela. Mas a decisão foi difícil e por isso a Márcia tomou uma medida drástica: trancou-se em seu quarto e chorou a noite inteira. E sua mãe, dona Diamantina, ali, tentando ajudar:

-- Olhe a coisa pelo lado bom, minha filha.
-- Que lado bom, mãe? O Vantuil disse que eu morri!
-- Então. Só quem morre vê o céu por dentro.

A Márcia internalizou a desdita, crente de que ver o céu corporativo por dentro valia qualquer sacrifício. Matou a pau na faculdade, conseguiu e encaixar numa empresa de exportação e com o tempo foi se tornando indispensável, porque era a única que sabia tudo sobre guias, formulários, decretos e trâmites burocráticos. Tanto que, como reconhecimento, a empresa a enviou ao seminário "Perspectivas da Exportação para o Terceiro Milênio".

A Márcia nem tinha se ajeitado direito na cadeira e, lá do púlpito, o apresentador fulminou:

-- Na empresa moderna, o especialista está morto!
Hããã? A Márcia pensou que não tinha ouvido direito, mas tinha. O terceiro milênio pertenceria aos generalistas,e ela era uma especialista. Gente como ela, o apresentador decretou, se tornaria um fardo para as empresas porque era preciso multiculturalidade, multipluralidade e mais meia dúzia de coisas começadas com "multi", que os especialistas não tinham. O céu ficou um pouco mais distante, só que a Márcia
não era de desistir assim tão fácil. Ninguém na empresa entendeu bem por quê, mas ela tanto implorou que conseguiu uma transferência para a área comercial. Iria aprender tudo o que pudesse e depois pediria para fazer um estágio na área jurídica. Ou na de compras. Ou na oficina mecânica.

O importante era generalizar.

Num desses corrupios, a empresa botou a Márcia para tomar conta de uma pequena equipe de almoxarifado e descobriu que ela tinha um insuspeitado espírito de liderança.

O estilo gerencial da Márcia era o que ela chamava "gestão por TPM". Ou seja, era como se todo dia fosse opior dia do mês. E tome pressão! Os resultados eram ótimos, mas todo mundo ali vivia estressado. Um dia, um funcionário da Márcia, o Nestor, reclamou que numa reunião ela          havia dito que todo mundo ali no almoxarifado era incompetente:

-- Desculpe, Márcia, mas você está generalizando.
-- Só estou, Nestor! Mais generalizada do que eu, impossível.
Daí a dois anos a Márcia finalmente lembrou que nunca na vida havia tirado férias. E já estava juntando uns pingados para curtir um par de dias na praia quando veio a notícia: a empresa tinha sido vendida para uma multinacional. E, claro, o VP de human resources da múlti alertou Márcia de que, dali em diante, quem não soubesse falar inglês "staria"...

-- Nem precisa me dizer! Já estou saindo da cova para fazer um curso!
Por via das dúvidas, além do inglês, a Márcia aprendeu
também um pouco de espanhol. Sabe-se lá o dia de tomorrow, ou mañana, ou qualquer outro amanhã que viesse pela frente. Mas valeu a pena, porque ela escapou da sinergização que estraçalhou o organograma de sua antiga empresa.
Dona Diamantina andava preocupada porque a filha já não comia direito, não dormia direito, não tinha namorado e mais uma lista de deficiências que só mãe enxerga. A Márcia prometeu que dali em diante tudo iria mudar porque, afinal de contas, ela era uma  ex-especialista-generalista-líder-poliglota e estava na hora de finalmente sair de férias. Foi quando
Dona Diamantina ligou a TV para saborear sua novelinha e apareceu um sujeito num desses canais com muita conversa e pouca ação:

-- No mercado de trabalho, hoje, quem não tem MBA está
morto e ainda não percebeu.

A Márcia rolou no chão num espasmo post mortem. Cancelou de novo as férias e saiu naquela mesma noite procurando um MBA para poder ressuscitar antes que a empresa percebesse que
ela era uma alma penada.
Perdeu meio quilo por mês nos longos meses seguintes, até pesar -- segundo Dona Diamantina -- menos que as penas do travesseiro. E foi só aí, quando se certificou de que nada mais lhe faltava, que a Márcia ensaiou aquela ida à praia. Mas antes aproveitou para assistir a uma palestra sobre competitividade no mercado de trabalho, só para não perder o hábito. E foi lá que morreu pela quinta vez:

-- O empregado tradicional está morto! -- disse o mestre.

A moda agora era o empreendedorismo. A Márcia nem quis saber direito o que era aquilo, só onde assinava para se atricular. O mestre esclareceu que empreendedorismo não era uma técnica, mas um estado de espírito. Era o funcionário decidindo como se fosse o dono. Para os não empreendedores, só restava a sepultura profissional. Só que a Márcia nem ouviu, porque havia saído em disparada pelo corredor. E já ia rasgando passagem para a praia quando percebeu, sentado lá na décima fila, ninguém menos que o Vantuil. Mais gordo, sem o bigode, mas era ele mesmo.
Conversa vai e volta, a Márcia ficou sabendo que o Vantuil não era nem especialista, nem generalista, nem poliglota, nem tinha MBA e não aparentava nenhuma propensão para empreendedor. Mas, incrivelmente, dava a impressão de ainda estar vivo.
-- Vantu, me conte, como você conseguiu sobreviver esses anos todos?
-- Ah, numa boa. Tranqüilo. Ganhando uma nota preta. Dou consultoria, sabe?
-- Em quê??
-- Qualidade de vida. Conselhos sobre relaxamento mental. Coisa filosófica, assim bem zen. Você sabe, o mercado está infestado de profissionais que nem sabem mais o que é
viver porque estão morrendo de tanto trabalhar. Mas e você, Marcinha?

-- Ah, eu estou aí, na fila para ver o céu por dentro. Por enquanto tenho morrido bem, obrigada!

 Max Gehringer