Pontos e Vírgulas ................................. 2002

 
O Gato Feio

Todos no prédio de apartamentos onde eu morava sabiam quem era o Feio.

Feio era o gato vira-lata do bairro.  Feio adorava três coisas neste mundo: brigas, comer  lixo e digamos, amor. As combinações destas três coisas, adicionadas a uma vida nas ruas, tinham causado danos em Feio.

Para começar ele só tinha um olho e no lugar onde deveria estar o outro olho, havia um buraco fundo, ele também havia perdido a orelha do mesmo lado e seu pé esquerdo parecia Ter sido quebrado gravemente no passado e o osso curava num ângulo estranho, fazendo com que ele sempre parecesse estar virando a esquina. Feio havia perdido a cauda há muito tempo e restava apenas um toco de cauda grosso, que ele sempre girava e torcia.

Todos que viam Feio tinham a mesma reação: 

-     Mas que gato feio!

As crianças eram alertadas para não tocarem nele e os adultos atiravam pedras nele, jogavam-lhe água com a mangueira para espantá-lo, o enxotavam quando ele tentava entrar em suas casas ou imprensavam suas patas na porta quando ele insistia em entrar.

Feio sempre tinha a mesma reação, se você jogasse água nele com a mangueira, ele não saia do lugar  ficava ali sendo ensopado até que você desistisse, se atirasse coisas nele, ele enroscava seu corpinho magricela aos pés, pedindo perdão. Sempre que via crianças, ele surgia miando, miando desesperada- mente e esfregando a cabeça em todas as mãos, implorando por amor. Quando eu o apanhava no colo  ele imediatamente começava a sugar minha blusa, orelhas ou o que encontrasse pela frente.

Um dia Feio quis dividir seu amor com os Huskies do vizinho, porém eles não eram amistosos e Feio foi ferido gravemente. Do meu apartamento eu ouvi seus gritos e corri para tentar ajudá-lo. Na hora em que cheguei onde ele estava caído, parecia que a triste vida de Feio estava se esvaindo...

Feio estava caído em uma poça, suas pernas traseiras e suas costas estavam totalmente disformes, um corte fundo na listra branca do pêlo atravessava seu peito, quando eu o apanhei e tentei levá-lo para casa, ele fungava e engasgava, podia senti-lo lutando para respirar.

“Acho que o estou machucando muito”, eu pensei, então eu senti a sensação familiar de Feio chupando minha orelha, em meio a tanta dor, sofrendo e obviamente morrendo, Feio estava tentando sugar minha orelha. eu o puxei para perto de mim e ele esfregou a cabeça na palma da minha mão, olhou-me com seu único olho dourado e começou a ronronar.

Mesmo sentindo tanta dor, aquele gatinho feio, cheio de cicatrizes de suas batalhas, estava pedindo um pouco de carinho, naquele instante achava Feio o gato mais lindo e adorável que eu já tinha visto, em nenhum momento ele tentou me arranhar ou morder, nem mesmo tentou fugir de mim ou rebelou-se de alguma forma.

Feio olhava para mim, confiando completamente que eu aliviaria sua dor, ele morreu em meus braços antes que eu entrasse em meu apartamento. Eu sentei abraçada com ele, por muito tempo assim fiquei, pensando sobre como este gato vira-lata deformado e coberto de cicatrizes havia mudado minha opinião, sobre o que significava a genuína pureza de espírito e sobre como amar incondicionalmente.

Feio me ensinara mais sobre doação e compaixão do que qualquer ser humano e eu sempre lhe serei grata por isto. Chegou a hora de eu seguir em frente e aprender a amar verdadeiramente e incondicionalmente, chegou a hora de dar meu amor para aqueles que me eram raros, mesmo que meus olhos nunca tivessem visto nenhum deles. As pessoas acham mais fácil e mais prazeroso amar o belo, o perfeito, sem notarem que os feios, os tortos, os mancos, enfim os deformados sejam em corpos, mentes ou almas, também podem e merecem serem amados.

Se vocês pudessem avaliar ou sentir como é quente e gostoso o abraço de alguém feio e antipático, de alguém deformado e que foge as regras e padrões de beleza, se vocês se permitissem essa sensação, talvez entenderiam e veriam os tantos “gatos feios” que a vida lhes coloca diante dos seus olhos, todos os dias e vocês se negam a enxergá-los. Muitas pessoas querem ser influentes, querem acumular dinheiro, querem ser bem sucedidas, queridas, simpáticas ou belas...

Quanto a mim, eu sempre tentarei ser como o Feio, passarei a vida dando e pedindo amor, buscando sempre fazer amigos, esperando pelo melhor dos outros e dando o que eu tenho de melhor, contando com as bênçãos que eu sei que virão, sem temer o dia de encontrar um “Husky”, porque sei que,  sempre terei alguém que me pegue no colo e me faça um carinho antes do meu último suspiro. Alguém que ama sem limites e sem se importar se sou “Feio”: JESUS.

Autoria desconhecida