Pontos e Vírgulas ................................. 2002
 

                                                                                           

    

 

 

 
 
   Anjos de uma asa só

Lá estava eu com minha família, em férias, num  acampamento isolado e com carro enguiçado. Isso aconteceu há 5 anos, mas  lembro-me como se fosse ontem.
Tentei dar a partida no carro ... Nada ... Caminhei para fora do acampamento e felizmente meus  palavrões foram abafados pelo barulho do riacho.
Minha mulher e eu, concluímos que éramos vítimas de  uma bateria arriada.
Sem alternativa, decidi voltar á pé até a vila mais  próxima e procurar ajuda.
Depois de uma hora e um tornozelo torcido, cheguei finalmente a um posto de gasolina. Ao me aproximar do posto, lembrei que era  domingo e é claro, o lugar estava fechado.
Por sorte havia um telefone público e uma lista  telefônica já com as folhas em frangalhos.
Consegui ligar para a única companhia de  auto-socorro que encontrei na lista, localizada a cerca de 30km dali.
- Não tem problema, disse a pessoa do outro lado da linha, normalmente estou fechado aos domingos, mas posso chegar aí em mais ou menos meia hora.
Fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo consciente das  implicações financeiras que essa oferta de ajuda me causaria.
Logo seguíamos, eu e o Zé, no seu reluzente  caminhão-guincho em direção ao acampamento.
Quando saí do caminhão, observei com espanto o Zé  descer com aparelhos a perna e a ajuda de muletas para se locomover.  Santo Deus !!!   Ele era paraplégico !!!
Enquanto se movimentava, comecei novamente minha  ginástica mental em calcular o preço da sua ajuda.
É só uma bateria descarregada, uma pequena carga  elétrica e vocês poderão seguir viagem, disse-me ele. O homem era impressionante, enquanto a bateria  carregava, distraiu meu filho com truques de mágica, e chegou a tirar uma moeda  da orelha, presenteando-a ao garoto. Enquanto colocava os cabos de volta no  caminhão, perguntei quanto lhe devia.
Oh !!! nada - respondeu, para minha surpresa.
- Tenho que lhe pagar alguma coisa, insisti.
- Não, reiterou ele. Há muitos anos atrás, alguém  me ajudou a sair de uma situação muito pior, quando perdi as minhas pernas,  e o sujeito que me socorreu, simplesmente me disse:
- Quando tiver uma oportunidade, "Passe isso  adiante".
Eis minha chance.... Você não me deve nada! Apenas  lembre-se:
Quando tiver uma oportunidade semelhante, faça o  mesmo ...
"Somos todos anjos de uma asa só, precisamos nos  abraçar para alçar vôo"

  Desconheço a autoria