Pontos e Vírgulas ................................. 2002

 

Piruá (Milho de Pipoca)

 “A transformação do milho duro em pipoca macia é o símbolo da grande transformação  pela qual devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser.  

O milho de pipoca não é o que deve ser.   Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.   O milho de pipoca somos nós:   duros, quebra-dentes, impróprios para comer.

Pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa.   Mas,  a transformação só acontece pelo poder do fogo.   Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca para sempre.   Assim acontece com a gente.   As grandes transformações só acontecem quando passamos pelo fogo.   Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito a vida inteira.   São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosas.   Sem que elas percebam acham que o seu jeito de ser é o melhor.

Mas, de repente, vem o fogo.   O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos.   Pode ser fogo de fora:  perder um amor,  perder um filho, ficar doente,  perder o emprego ou ficar pobre.   Pode ser fogo de dentro: pânico,  medo,  ansiedade,  depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos.

Há sempre o recurso do remédio.  Apagar o fogo.   Sem fogo o sofrimento diminui.   E com isso a possibilidade da grande transformação.   Imagino que a pobre pipoca,  fechada dentro da panela,  vai ficando cada vez mais dura,  fechada em si mesmo, ela não pode imaginar destino diferente.  Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada.  A pipoca não imagina aquilo que ela é capaz.  Aí, sem aviso prévio,  pelo poder do fogo a grande transformação acontece:  Pum!  - e ela aparece como uma outra coisa  completamente diferente que ela mesma nunca havia sonhado. 

Piruá  é o milho de pipoca que se recusa a mudar.   Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.    A sua presunção e o medo são a dura casca de milho que não estoura.   O destino delas é triste.  Ficarão duras a vida inteira.   Não vão se transformar na flor branca e macia.  Não vão dar alegria a ninguém.   Terminando o estouro alegre da pipoca,  no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada.  Seu destino é o lixo...”

 

                                                                        ( Do livro “O Amor que acende a lua” de Rubem Alves )