Pontos e Vírgulas ................................. 2002

 

O jovem e o cego


Vinham dois homens caminhando... um era jovem, trazia em seu rosto os sinais  da inexperiência. Os olhos vivos e atentos a tudo, como a querer aspirar a vida em um só fôlego. Tencionava modificar o mundo, revolucionar sua época, ensinar o muito que julgava saber.
O outro trazia no semblante as marcas do tempo. Já não era jovem, já não queria tomar o mundo, contentava-se em apreender um pouco aqui e ali, analisando sereno as experiências que a vida lhe apresentava.
Tampouco desejava deixar suas marcas nos homens e nas coisas que o rodeavam. Não queria discípulos, nem seguidores.
Não pretendia modificar a ninguém, a não ser seu próprio eu.
Era cego de nascença,
porém apesar de ter fechados os olhos do corpo, possuía abertos os da alma.
Vinham em silêncio, quando o jovem, surpreso, exclamou:
- Uma pipa! Uma pipa lá no céu!
- Porque você está tão alegre em vê-la? - perguntou o cego.
- Claro, toda vez que vejo uma pipa, uma só idéia me vem à cabeça, a idéia da liberdade.  E quem de nós não valoriza a possibilidade de sentir-se livre? - disse o jovem.
- Liberdade? Estranho; para mim a pipa traz também outro significado.
- Outro significado? Como assim?
- Mas para mim, a pipa traz a lembrança da responsabilidade e do bom-senso.
- Não entendo...
- O exercício da liberdade é complexo e fundamental em nossas vidas.
Como a pipa,
só podemos alçar vôos mais altos se estivermos presos ao solo.
Temos que ter um fio resistente e mãos hábeis que nos manipulem com acerto. Tais instrumentos são:
a responsabilidade e o bom-senso. Fazendo uso de tais ferramentas, que dirigem e orientam o nosso vôo, podemos ter certeza de estarmos fazendo bom uso da liberdade que nos é concedida.
- A responsabilidade e o bom-senso são a segurança de que a pipa precisa para subir... subir...
- Assim o limite para os nossos passos não é o espaço que nos rodeia, mas o comprimento do fio que nos prende ao solo, ou seja, a certeza de que estamos utilizando nossa liberdade de acordo com as normas que
nos ditam o bom senso e a responsabilidade que já adquirimos.
- Muitas vezes, meu jovem, os olhos nos enganam.
- Não basta vermos, é preciso, enxergamos além.
Ouvindo isso o jovem calou-se, deu o braço ao cego e entregou-se à reflexão.
O moço é o instinto primeiro.
O velho é a sabedoria.

"O instinto nos impulsiona, a sabedoria nos guia"